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16/06/2008 10:01 Burocracia favorece a impunidade A minoria dos assassinos de Curitiba são condenados e vão para o sistema penitenciário. A afirmação é feita com base nos números apresentados pela Delegacia de Homicídios (DH), responsável pela investigação de parte dos crimes, e pelo Tribunal do Júri, onde os réus são condenados ou absolvidos. Os processos de homicídios e tentativas de homicídio, diariamente são instaurados na DH e nos distritos da capital. A investigação é morosa e apenas parte dos criminosos são identificados e encaminhados para o Ministério Público, que oferece denúncia para uma parcela menor ainda. Por último, são pouquíssimos os casos que chegam ao Tribunal do Júri e completam o processo com o julgamento.
A burocracia do sistema judiciário criminal se transforma em um funil e beneficia apenas uma das partes o acusado.
Na semana passada, o presidente Lula sancionou duas leis para mudar o processamento dos crimes de competência do Tribunal do Júri. A principal alteração prevê aceleração no processo, principalmente na instrução antes do júri, colocando ao juiz a possibilidade de julgar sem a presença do acusado. Também, algumas simplificações dos quesitos e o fim do protesto por novo júri (quando a pena é superior a 20 anos) baliza uma aceleração no encaminhamento.
Segundo Rogério Etzel, juiz presidente da 2.ª Vara Privativa do Tribunal do Júri, as novas leis nem entraram em vigor e já necessitam de mudanças. “Nossas dificuldades não são quanto ao tempo que levamos para julgar, mas sim, em quantidade de julgamentos que podemos fazer, ou seja, temos apenas um plenário e é impossível marcar mais de um julgamento no mesmo dia”, contou, explicando que cada julgamento leva em média 8 horas e no caso de dois réus, pode superar dois dias. “A nova lei pode agilizar o processo de júri, mas enquanto tivermos só um plenário, continuaremos tendo apenas um processo julgado por dia, menos de 20 por mês”, completou.
Quanto ao Tribunal do Júri, Rogério Etzel disse que além de mais plenários, seriam necessárias mais varas criminais e, conseqüentemente, mais juízes. Ele contou também que é responsável pelas audiências iniciais. “Quando não estamos julgando, fazemos as audiências iniciais. Antes marcava de 30 e em 30 minutos, mas agora já estou marcando de 15 em 15”, falou o juiz, que faz mais de 10 audiências num único dia.
Condenação
O pacote de mudanças promovido pela nova lei afeta principalmente aos réus condenados há 20 anos ou mais de prisão, que, a partir de agora, não terão mais direito a novo julgamento.
Esse antigo benefício permitiu, por exemplo, que o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, condenado a 30 anos por ter encomendado o assassinato da freira Dorothy Stang, no Pará, fosse absolvido no segundo julgamento. Uma das testemunhas - subornada, segundo a promotoria - voltou atrás em seu depoimento e o inocentou.
Nos bastidores do TJ há quem garanta que os juízes preferiam aplicar penas menores de 20 anos só para não correr o risco de ter que julgá-lo novamente. A nova lei ao menos liberará os juizes para aplicar penas mais rígidas, sem temor de ter que mudá-las depois. Marcio Barros | comentários(1)
26/05/2008 01:09 Maluco sequestra a sogra para se acertar com a namorada
Inconformado com o fim do relacionamento e na tentativa de reconquistar sua amada, Rafael Eduardo Bratti, 20 anos, o “Rafinha”, seqüestrou a mãe da jovem e a manteve sob a mira de um revólver por quase uma hora, na casa dele, na Vila Maria Antonieta, em Pinhais, ontem à tarde.
A Polícia Militar foi chamada e conseguiu libertar a mulher e prender o rapaz em flagrante. Ele foi autuado por porte de arma, seqüestro e cárcere privado. “Rafinha” já tinha antecedentes criminais.
Um ano de separação não foi suficiente para que o acusado deixasse a ex-namorada em paz. Segundo pessoas da família dela, ele freqüentemente seguia a garota e telefonava várias vezes por dia, em todos os horários. “O número do telefone foi trocado para que ela tivesse paz”, contaram as testemunhas.
Ousado
Por volta de 13h de ontem, quando lavava a louça do almoço, a mãe da namorada foi surpreendida por “Rafinha” que, com um revólver a rendeu e obrigou a entrar em contato com a filha. “Vi que ele estava transtornado e menti, dizendo que ela não estava em casa, mas ela estava trancada no quarto, com medo”, contou a mulher. Ele deu uma “gravata” com um braço e segurando o revólver com a outra mão, ameaçava-a de morte caso a filha não aparecesse.
Em seguida, arrastou a mulher para fora, entrou em seu carro e levou-a para sua casa, a três quadras dali. “Foram momentos de terror. Ele mandou que eu ligasse para o pai dela, exigindo que ele a trouxesse para conversarem. Minha filha havia terminado o namoro porque sabia que ele usava drogas e estava envolvido com o mundo do crime”, completou.
Segundo o cabo Araujo, da Rondas Ostensivas de Natureza Especial (Rone), o pai da menina ligou para a polícia e informou sobre o seqüestro. “Rapidamente chegamos na casa, libertamos a mulher e prendemos o rapaz. A arma estava na sala da casa dele”, explicou o policial.
Na delegacia, os policiais descobriram que “Rafinha”, além de uma passagem por porte ilegal de arma, é suspeito de envolvimento em vários crimes em Pinhais. “Ele estava sendo investigado, inclusive por alguns casos de homicídios”, completou o policial.
O acusado revelou que tudo o que fez foi por amor. “Eu queria me acertar com ela”, lamentou, afirmando: “Cadeia não é eterna, um dia eu saio e a gente se acerta”. Marcio Barros | comentários(1)
23/05/2008 01:54 NULL
Oito mulheres são assassinadas em 10 dias na Grande Curitiba
A mulher está se destacando na luta pela igualdade, mas isso também vem acontecendo no mundo do crime, onde, a cada dia, mulheres são presas nas mais diversas situações. Aumentou também o número vítimas femininas de homicídio em Curitiba e região metropolitana. Somente nos últimos 10 dias, foram quatro crimes em Curitiba e outros quatro em Colombo, Quatro Barras, Piraquara e Pinhais. Estes números são apenas das vítimas que morreram no local do crime, mas ainda existem outras que foram baleadas, esfaqueadas, agredidas pelos seus companheiros e sobreviveram.
Tráfico
Segundo Omar Peplow, superintendente do 9.º Distrito Policial, o único que recebe presas, na quarta-feira, havia 46 detidas, 80% por causa do envolvimento com o tráfico. “A maioria se envolve com o crime por motivos sentimentais, ou seja, para livrar o marido ou o namorado da cadeia, ou então, para levantar um dinheiro e manter a casa e os filhos”, explicou. Segundo ele, obviamente existem casos em que mulheres se envolvem com roubo ou com o tráfico para sustentar o vício, mas isso é minoria. “Tem aquelas que realmente sabem o que estão fazendo, mas a grande parte cai no crime assumindo a bronca dos outros”, completou.
Mortes
Das oito mulheres assassinadas nos últimos dias, possivelmente três foram mortas por ciúmes e os outros casos estão em fase de investigação.
Rosana Gonçalves Queiróz, 20 anos, foi morta no dia 16, em Campo Largo, com golpes de faca, dados pelo marido. Janaína das Graças Ribeiro, 18, foi morta a pedradas por Rosane Oliveira, 27, que confessou que cometeu o crime porque suspeitou que o marido tinha um caso com a vítima.
Para a morte de Marta Munhoz da Silva, 33, em Quatro Barras, no dia 17, as primeiras informações eram de que ela teria sido morta em um ritual de magia negra, porém, a polícia investiga outras hipóteses para o crime, mas também não descarta a possibilidade de ter sido um crime passional. Em Pinhais e Piraquara, duas mulheres que foram encontradas mortas a tiros, continuam sem identificação no IML, portanto, sem investigação. Os outros casos estão sendo investigados pela Delegacia de Homicídios. Marcio Barros | comentários(0)
17/03/2008 09:40 O bem contra o mal
Assim como existem jornalistas corruptos, advogados corruptos e principalmente políticos corruptos, existem também policiais corruptos, e não são poucos.
Já vi casos onde duas, três, quatro e até cinco pessoas foram mortas em confrontos com a polícia. Nunca, em nenhum caso o bandido morre no local. Sempre ele é levado para o hospital, para morrer no caminho ou depois, na sala de cirurgia.
Situação que divide opiniões. Alguns apóiam e justificam as mortes defendendo os policiais. No entanto, familiares dos mortos, a maioria adolescentes ou então jovens, com no Máximo 23 anos, sofrem, sem saber exatamente o que aconteceu, apenas que durante uma abordagem, houve uma reação e em seguida uma troca de tiros. Os policiais, abençoados por Deus, dificilmente são baleados, enquanto os outros, sempre levam a pior.
É a luta do bem contra o mal. Mas quem é quem? Marcio Barros | comentários(1)
13/03/2008 14:30 A violência em Curitiba e Região Metropolitana, deixou de ser folclore para se tornar realidade. E nessa história triste, nós somos os personagens principais que diferente do que acontece no cinema, nem sempre vivemos finais felizes.
A maioria das pessoas sempre ouviram falar da violência, seja pelas páginas da Tribuna, (melhor cobertura policial do Estado) ou pelas rádios e programas de TV, no entanto, nem sempre os fatos estavam tão próximos delas, e agora, virou rotina, cada dia sabemos de alguma pessoa do nosso relacionamento que foi assaltado, seqüestrado, violentado, enfim, vítima dessa tristeza que se tornou a cidade sorriso.
Para nos defender, temos poucas opções. Uma delas é nos trancarmos em casa, com grades, cadeados e deixar de viver a vida em sociedade. Optar pela reclusão e se adaptar com novas regras: Sair à noite nem pensar, viajar no final de semana, muito menos. Dessa forma, viveremos seguros, mas em um constante clima de terror, e nossos filhos serão como bichos enjaulados, sem poder passear no parque ou brincar com outras crianças da vizinhança.
Outra opção é contratar uma empresa de segurança privada. Pode ser uma daquelas que instala alarme em todas as áreas da sua propriedade e quando ao menor sinal de perigo, dois motoqueiros vestidos com uniformes chegam correndo e verificam o que pode estar acontecendo. Ai, você no seu quarto, trancado, escondido embaixo da cama, torcendo para que a empresa seja séria e não esteja mancomunada com o bandido e também para que o alarme não tenha sido disparado por um pichador, se não, além de ter passado medo, você ficará com remorso.
Tudo isso ainda pode ser pior. Digamos que você queira contratar uma empresa informal, aquelas que trabalham com motoqueiros rondando as ruas da vizinhança. De tempo em tempo, eles passam em frente da sua casa e dão uma buzinadinha. Além de não conseguir dormir, você ainda vai ficar preocupado tentando acreditar que a buzinada não foi para avisar algum ladrão sobre o “perigo” que se aproxima.
Por último, caso você tenha desistido de agir com próprias mãos, contratando terceiros para garantir a segurança sua e da sua família, ainda existe a terceira opção, mais demorada, mais violenta, nem sempre tão eficiente, mas é o que nos resta; 190 Marcio Barros | comentários(1)
12/02/2008 01:18
Papa-defunto
Hoje em nossa reunião de pauta, no fumódromo da Tribuna, discutimos diversos assuntos, mas teve um que eu não poderia deixar de citar aqui.
A disputa de mortos pelos caras das funerárias já faz tempo que chama a atenção não só dos colegas de reportagem, que se encontram no Instituto Médico-Legal e nos locais de morte, mas principalmente daqueles que de alguma forma caem na lábia dos urubus.
Muito fácil de identificar um papa-defunto. Geralmente eles estão “bem vestidos”, sempre carregando um rádio HT e ouvindo as ocorrências do Siate.
Nos locais de morte, principalmente em acidentes de transito , eles ficam cercando os policiais, motoristas do IML e parentes dos mortos. São muitos, de diversas funerárias, todos disputando o mesmo morto. Quem chega primeiro leva.
Todo mundo sabe, mas ninguém comenta. Rola um conchavo entre alguns policiais, alguns funcionários do IML e outros responsáveis pelo local de morte.
Geralmente quem chega primeiro, seja policial militar, policial Rodoviário federal ou estadual ou o socorrista do Siate, pede os documentos do morto. Lagumas vezes, a vítima está sem identificação, mas quando ele tem, o primeiro que chega no local toma posse dos documentos e já acerta com alguma funerária, uma espécie de "comissãozinha".
Eles são verdadeiros atores. Se passam por jornalistas, policiais a paisana e até por familiares da vítima.
Como desbancar essa trupe? Realmente não sei, mas se alguém souber, pode deixar um recadinho ai embaixo Marcio Barros | comentários(0)
10/02/2008 11:49 Mudanças Amanhã, esse espaço terá novo objetivo. Além de contos policiais, vou postar também textos, charges e outras cositas mais, de alguns colegas talentosos.
Até.. Marcio Barros | comentários(1)
07/11/2006 13:44 O garçon e a ninfeta
Os fortes raios de sol que passavam pelo vão da cortina, acertavam em cheio o rosto amassado e os olhos inchados de Genésio. Da cama onde estava deitado, dava para ver as roupas penduradas no varal. Calças, camisas, calcinhas de todas as cores e tamanhos. A sua janela parecia um desenho animado, sonorizado pelos gritos das crianças que jogavam bola no terreno baldio do lado do beco onde morava. Também era possível ouvir músicas sendo cantaroladas pelas mulheres que lavavam roupa nos tanques, logo abaixo da sua janela.
Genésio trabalhava de garçom em um bar mequetrefe no centro de Curitiba. O estabelecimento localizado em uma esquina movimentada da Rua Cruz Machado era freqüentado por putas, punguistas e gigolôs, público fiel nas madrugadas.
O garçom já somava mais de 15 anos de trabalho prestado no estabelecimento e costumava dizer que conhecia até as pulgas que habitavam os cantos escuros do salão. Sabendo do perigo e do nível da clientela, insistia em trabalhar armado, sempre com um revólver n a cintura.
Era quase meio dia e ele tentava recuperar o sono.
- Mas que merda! Assim nunca vou descansar com esses meninos gritando desse jeito, ralhou Genésio.
- Calma pai, eles já vão para a escola e a coisa sossega, disse Emília, a filha adolescente.
Ele havia criado a menina sozinho. Ela não tinha nem quatro anos, quando a mãe foi embora e, sempre que entravam nesse assunto, ele evitava e dizia que a mulher estava morta.
Emília ainda não havia completado o ensino médio, mas era a mulher da casa. Lavava, passava, cozinhava e ainda cuidava das coisas do pai. Ela estudava à noite e tinha o sonho de ser atriz. Morena, com os cabelos na altura dos ombros, tinha o corpo de mulher e era cobiçada na escola e no beco onde morava. Os seios eram medianos e o corpo escultural ficava escondido em um vestido velho e um avental durante o dia. Mas, quando saia de casa, ela se transformava. Mesmo com o uniforme da escola, dava para ver que Deus havia sido generoso e concedido curvas perfeitas para a menina.
Naquela noite, o pai já tinha saído de casa e ela, não colocou a roupa escolar. Abusou da maquiagem, vestiu-se com uma calça branca muito justa e se perfumou inteira.
Saiu do beco e foi para o lado contrário ao da escola. Como o pai só chegava de manhã, ela teria a noite toda para se divertir e voltar para casa antes de ele chegar. A duas quadras do beco, um carrão esperava a menina. Era um Santana Preto, com rodas de liga leve, vidros escuros e um adesivo da Polícia Civil colocado no canto esquerdo do pára-brisa.
O delegado Vladimir Lucena era um policial corrupto, cheio de truques e envolvido em diversas falcatruas.
-Oi mocinha, achei que você não vinha, disse Lucena.
-Tive que esperar meu pai sair para eu poder me arrumar direito. Jamais deixaria de aproveitar essa oportunidade.
-Você está linda!
-Você deve falar isso para todas.
Lucena deu uma gargalhada, abraçou a menina e disse:- Você fica mais bonita quando faz cara de brava. Em seguida, ele ligou o carro que sumiu na rua escura da vila.
No Bar
Mal os clientes entravam no bar, Genésio já avisava que, naquela noite, o estabelecimento fecharia mais cedo. Era aniversário de um colega, e todos iriam comemorar. Pouco depois da meia-noite as cadeiras já estavam em cima das mesas e a meia porta, dava a entender que o expediente já havia acabado.
O local onde aconteceria a comemoração era perto, todos iriam juntos e a pé.
Quando dobraram a esquina da Alameda Cabral, já dava para ver as luzes coloridas e os cartazes das mulheres expostos na frente da casa. Elas eram como produtos à venda e os carros que passavam, paravam para ver as beldades oferecidas naquela noite.
O som estava bem alto. Genésio era conhecido dos porteiros da boate e entrou sem ser revistado e logo na porta de entrada ele viu os amigos em uma mesa, no canto direito, bem ao lado do palco. Estavam animados e a bebida deixava todos audaciosos.
Os shows já haviam começado. A cada 20 minutos um homem avisava no sistema de som o nome de uma mulher, que entrava por uma cortina vermelha no canto do palco. A maioria delas Genésio estava cansado de ver no bar. Elas eram suas clientes, mas nem por isso ele deixava de se empolgar.
A atração principal daquela noite era uma garota, anunciada como ninfeta. Na mesa, os amigos faziam brincadeiras e apostas sobre o valor que cada um pagaria para ter a moça por alguns instantes.
Eram quase três da manhã, quando o homem do som chamou a atenção dos clientes.
-Respeitável público, é com muita honra que a melhor casa de streap-tease do sul do Brasil apresenta a mais bela das mulheres. Rosto de menina e corpo de mulher. Com vocês, Lu, a ninfeta maravilhosa.
Ela surgiu detrás da cortina vermelha, linda, vestida com uma cinta liga, cabelos bem penteados, unhas bem feitas e muito sensual. Os homens gritavam como se estivessem em uma arena e a moça, fosse uma presa prestes a ser devorada por um leão.
No primeiro momento, Genésio não percebeu que a mulher desejada pelos amigos era tão íntima sua. Aos poucos, ela foi se aproximando da mesa e, entre uma insinuação e outra os olhares de pai e filha se cruzaram.
Genésio teve falta de ar e custou a acreditar que a mulher que estava no palco era Emília, a menina que ele criara com tanto esforço. A moça também ficou sem saber o que fazer. Continuaria o show e depois conversaria com o pai ou parava por ali e fugiria para casa?
Ela continuou. Pensou no sonho de ser atriz e foi em frente.
Genésio também não saiu dali. Ele ficou na mesma mesa, na beira do palco.
Bem no fundo do salão, o delegado Lucena fumava um cigarro atrás do outro e de longe acompanhava o sucesso da menina.
Na cabeça do pai da garota muitas coisas vinham a tona, inclusive as lembranças da ex-mulher que ele insistia em dizer para a filha que havia morrido. Na verdade, ela tinha abandonado a família para trabalhar como garota de programa. De vez em quando aparecia no bar onde ele trabalhava para pedir um trocado, com certeza para comprar drogas ou tomar uma birita. Quando aparecia, nem sempre perguntava da filha. Também passou pela cabeça de Genésio a possibilidade da menina seguir os passos da mãe e cair na prostituição e no vício.
Seus olhos se encheram de lágrimas, ele saltou para cima do palco, sacou o revolver que trazia na cinta e dois tiros foram ouvidos dentro do salão.
A correria foi geral. Os seguranças corriam para todos os lados tentando acalmar os ânimos dos clientes. No palco, a menina ajoelhada, chorava em cima de uma mancha de sangue que escorria até o chão.
O delegado que acompanhava de longe os movimentos de Genésio, foi mais rápido e quando viu que ele havia sacado uma arma, atirou duas vezes nas suas costas. Emília desesperada tentava reanimar o pai, mas era em vão, ele já estava morto.
No salão ninguém entendia porque o garçom tinha sido baleado e nem por que o interesse na garota em tentar reanimá-lo.
No outro dia, as manchetes dos jornais informavam sobre uma troca de tiros em uma boate onde um assaltante perigoso tinha sido morto por um policial que estava de folga.
A ninfeta nunca mais foi vista, nem na boate e nem no beco, e o delegado foi condecorado pelo serviço prestado a comunidade.
Marcio Barros | comentários(12)
25/10/2006 11:29 Trocado
Amanhecia no centro da cidade, a neblina ainda escondia o topo dos prédios e poucos carros circulavam naquela manha fria de inverno. Dentro de poucas horas todas aquelas ruas estariam cheias e barulhentas. Embaixo das marquises das lojas, muitas pessoas se abrigavam do frio e da cerração.
-Ei moço, me dá um cigarro?
-Não fumo!
Respondi sem prestar muita atenção da onde vinha o pedido e continuei andando, indiferente aquelas pessoas.
-Então me da um trocado pra tomar café!
-Só tenho o dinheiro do ônibus.
-E se o Senhor passar por aqui amanhã traz um trocado pra mim?
-Como? Perguntei sem entender o que aquela voz minguada e fraca queria dizer.
Só então percebi que se tratava de um menino de rua, aparentava uns 15 anos, mas com certeza não tinha mais do que doze. A marca dos maus tratos era claro no seu rosto.
Ele insistiu.
-É, se o Senhor for passar amanhã por aqui me traz um trocado?
-Afinal, o que você vai fazer com esse dinheiro?
-Vou tomar café! Respondeu convicto o menino.
-Mas e hoje, você não vai comer nada?
-Vou sim.
-Como assim? Então porque você esta pedindo dinheiro se você tem?
-Quem disse que eu tenho?
-Espera ai! Você me pediu um trocado pra tomar café, eu falei que não tenho, mas mesmo assim você vai tomar café ?
-Sabe o que é? Ontem passou por aqui um rapaz assim como o Senhor, e me disse que não tinha dinheiro, mas me garantiu que hoje ele passaria por aqui e me daria um trocado.
-E se ele não passar?
-Daí eu não como nada!
Completamente desconcertado, coloquei a mão no meu bolso e tirei uma nota qualquer, afinal eu não ia pegar ônibus nenhum.
-Valeu tio, correu o menino. Marcio Barros | comentários(2)
20/09/2006 21:21 O cara do carro pretoEra uma noite de domingo. Mesmo ainda estando no inverno, fazia um calor agradável e o clima estava seco. Uma noite ideal para andar a toa, ao ar livre.
Rogério, um homem simples e rude de 57 anos, voltava para casa depoisde um dia de trabalho. Por mais que a pessoa ame a profissão que exerce, ainda assim, trabalhar no domingo sempre é mais desgastante. Era pouco mais de oito e meia da noite e ele resolveu dar uma passadinha em um bar algumas quadras da sua casa. Era costume, aos domingos. Sempre no final da tarde ele ia ao bar discutir os resultados dos jogos do Campeonato Brasileiro. Torcedor do Corinthians inveterado, era conhecido no estabelecimento como Paulista. O sotaque adquirido nos mais de 15 anos que morou em São Paulo, não foi deixado para trás quando veio morar no Paraná.
Por volta de 21h, ele voltava para casa quando de longe viu um carro preto parado em uma parte escura da ruas, duas quadras da sua. Fazia pouco mais de três anos que ele, a esposa Dilma e os três filhos haviam se mudado para o município de Colombo, região metropolitana de Curitiba, no entanto, esse tempo era suficiente para saber que o local não era dos mais seguros e que traficantes, e usuário de drogas eram freqüentadores da região.
Rogério foi pelo canto da rua, procurando não ser visto, para não chamar a atenção dos ocupantes do veículo. Era um Santana, modelo novo, quatro portas, vidros escuros e com rodas de liga leve. "Com certeza é um daqueles traficantezinhos, que gostam de mostrar poder andando de carro equipado", pensou.
Ao chegar mais perto do carro preto, viu que era um casal trepando ardentemente. O calor dos corpos havia embaçado os vidros e, do lado de fora dava para perceber que o carro mesmo parado estava em movimento.
A curiosidade misturada com tesão, fez com que Rogério diminuísse os passos e ficasse escondido por alguns minutos trás de uma árvore. Como se estivesse hipnotizado pela cena erótica.
Passaram-se alguns minutos e o silêncio tomou conta do lugar. O carro não se mexia mais e Rogério tinha a certeza que o casal havia chegado ao gozo.
Quando ele decidiu sair do esconderijo e voltar ao caminho de casa, a porta do lado direito do carro se abriu e para sua surpresa, saiu de dentro do veículo uma pessoa que ele tanto conhecia. A esposa Dilma.
Um calor tomou conta do corpo de Rogério que sentiu suas mãos ferverem e o sangue subir a cabeça. Não poderia atacar de surpresa, isso espantaria a mulher e também o garanhão do carro preto.
Ele continuou escondido e esperou que o Santana arrancasse devagar. O motorista antes de engatar a segunda marcha, mandou um beijo para a amante e falou uma coisa qualquer, que Rogério não conseguiu entender. Não por que o motorista falou baixo, mas porque o estado de nervos em que se encontrava era ensurdecedor.
Quando Dilma ainda arrumava a roupa, para chegar em casa alinhada e não levantar suspeitas, viu Rogério vindo em sua direção. Ela tentou correr para um terreno baldio, mas foi perseguida dentro do mato até que ele a alcançou. Os dois lutaram e ele, chorando pela traição perguntava o por que? Ela, sem saber o que dizer, não respondia nada, apenas gritava por socorro.
Dilma era uma mulher de 42 anos. Quinze anos de diferença na idade entre eles fazia a diferença. Ela era morena, cabelos na altura dos ombros, tinha traços fortes. Seus seios eram fartos e ela costumava usar roupas que não valorizavam a sua feminilidade. No entanto, tinha uma beleza diferente, cercada de sensualidade e mistério.
Eles estavam juntos há 22 anos, haviam se conhecido em São Paulo. Ela era Natural de Curitiba e estava na capital paulista a trabalho. Tiveram três filhos e ela sempre foi dona de casa, dedicada e fiel.
Sem pensar nas conseqüências e simplesmente agindo por impulso, Rogério abriu um canivete que sempre trazia consigo e desferiu vários golpes. Dilma morreu em seguida, ainda com o esperma do amante nas roupas intimas.
Sujo com o sangue da traidora e com um corte na mão direita, Rogério procurou um pedaço de papel, folhas no mato ou algo que pudesse limpar as mãos e a arma do crime.
Muitas dúvidas cercavam o pensamento do pobre corintiano, que nunca imaginava que a esposa, um modelo de mulher, pudesse estar lhe traindo.
Em casa, pensou em várias desculpas que poderia dar para justificar o sumiço da traidora. A idéia de comunicar o desaparecimento aos familiares de Dilma, parecia a decisão mais plausível. Para dar veracidade a sua mentira, ele mesmo começou a ajudar na busca e, ainda na madrugada, como se querendo encontra-la com vida, foi até o mato e viu o corpo, caído de bruços, todo ensanguentado.
A policia da cidade foi acionada e logo, a noticia do desaparecimento foi substituída por um homicídio, bastava agora achar o assassino.
O delegado de plantão, Vladimir Lucena, foi até o local, fotografou o corpo e de uma forma entristecida, diferente de como tratara as dezenas de casos que trabalhou nos mais de 15 anos de carreira policial, agendou um horário com Rogério, para colher seu depoimento na manhã seguinte.
No Instituto Médico-Legal, os legistas encontraram na mulher, mais de 20 cortes, feitos por uma arma pequena, mas muito afiada. Porém, o que mais chamou a atenção dos médicos, foi o sêmem encontrado na calcinha de Dilma.
Na manhã do outro dia, Rogério foi até a delegacia e o delegado já o esperava. Vladimir Lucena segurava um cigarro em uma mão e na outra um copo de café. Os olhos vermelhos indicavam que a noite não tinha sido das melhores.
Durante todo o depoimento de Rogério, Vladmir fumou. Acendia um cigarro no outro e não tirava os olhos das mãos de Rogério. Em certo momento ele questionou sobre o ferimento na mão direita, um corte, parecido com os que haviam no corpo de Dilma. Rogério disse que era resultado de um acidente de trabalho. Os dois se despediram e ficou no ar o compromisso de que qualquer novidade se encontrariam novamente.
A notícia sobre o encontro de esperma nas partes intimas de Dilma não poderia ser dada de forma comum ao viúvo. Para tanto, o delegado Vladimir solicitou que ele fizesse um teste de DNA. Quinze dias depois, a confirmação. Outro homem havia transado com ela momentos antes do crime, possivelmente o assassino.
As investigações continuaram por quase um mês. Rogério, ainda não conseguia entender o motivo da traição e pensava em um jeito de resolver o caso. Elaborou várias maneiras de incriminar o dono do carro preto, mas não anotara a placa e não fazia idéia de como encontrá-lo.
Domingo, logo depois do almoço, Rogério colocou a sua camisa do Corinthians e saiu de casa, com destino ao bar, queria rever os amigos e conversar sobre futebol. Quando saia de casa, de longe viu o carro preto, mais ou menos onde há pouco mais de um mês tinha visto pela primeira vez. As pernas amoleceram e ele não sabia se corria ou encarava o encontro. Essa seria uma boa oportunidade para anotar a placa e quem sabe, fazer uma carta anônima indicando o assassino.
Quando o carro chegou perto, parou do seu lado e o vidro elétrico começou a descer lentamente. Novamente uma surpresa. Vladimir, o delegado.
Os dois se olharam e novamente o calor tomou conta do corpo de Rogério, que por um impulso sacou o canivete e partiu para cima do policial. Com muito mais agilidade, ele sacou a pistola e disparou três tiros no peito de Rogério, que morreu com o canivete na mão.
A polícia identificou a arma perfurocortante de Rogério como sendo a mesmo que matou a sua esposa, mas até hoje, não sabem de quem era o sêmem que estava nas roupas íntimas de Dilma.
Marcio Barros | comentários(8)
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